Analfabetismo emocional: por que tantos homens sofrem em silêncio?

As mulheres lideram os diagnósticos de transtornos mentais, mas os homens concentram as maiores taxas de suicídio.

Quando falamos sobre saúde mental, muito se pensa sobre a importância do acompanhamento psicológico como forma de prevenção e tratamento de doenças mentais. Mas não olhamos para as pessoas que menos procuram por esse auxílio, revelando um problema enraizado no Brasil. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) destacam a existência de 1 bilhão de pessoas que vivem com problemas psicológicos.
A mesma pesquisa destaca as mulheres com o maior percentual de diagnóstico de ansiedade e depressão. Mas isso não significa que os homens estão livres dos problemas relacionados à mente. A Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), com o relatório "Óbitos por suicídio no Brasil: análise temporal e sociodemográfica (2013–2023)", mostra a predominância de 75% a 80% dos casos de suicídios cometidos por homens.
Mas por que são os que menos buscam ajuda?
Culturalmente, os homens são ensinados a reprimir seus sentimentos na infância. Essa prática traz problemas que perduram até a fase adulta. A ideia de que "homem não pode chorar", "o homem precisa ser forte" e "problemas mentais são frescura" dificulta a procura dos homens pelos cuidados psicológicos nos sintomas iniciais.
Muitos procuram ajuda quando já estão no estágio mais grave da doença, incentivados por mulheres a buscar ajuda. Isso é o reflexo da falta de entendimento e autocuidado entre os homens.
O analfabetismo emocional não é um diagnóstico clínico, mas é um termo utilizado para descrever a dificuldade em reconhecer ou comunicar seus sentimentos. Muitos homens acreditam que precisam ser fortes e não demonstrar fraqueza. Isso diminui as chances de procurar ajuda.
A depressão é associada a pessoas em estado de sofrimento, mas a realidade é diferente. A depressão nos homens se manifesta de outras maneiras.
Pode aparecer como:
Irritabilidade;
agressividade;
isolamento social;
abuso de álcool ou outras drogas;
excesso de trabalho;
comportamentos de risco
Na tentativa de solucionar sozinhos os conflitos internos, muitos buscam no trabalho excessivo uma válvula de escape para a dor interna. Para a neuropsicóloga Larissa Brito, os homens precisam ter mais espaços para falar sobre dores e vulnerabilidade, sem o julgamento existente na sociedade.
“Precisamos desconstruir essa ideia formada pela sociedade sobre o homem. Precisamos criar meninos que saibam que podem sentir e chorar, sim, mostrando que ali existe um ser humano que sente e precisa de cuidado e afeto. Pedir ajuda psicológica não diminui sua masculinidade, a vergonha de demonstrar vulnerabilidade é um dos fatores que dificultam a busca por atendimento psicológico e adoecem milhares de homens”, ressalta a psicóloga.
Outro fator apontado por especialistas para o agravamento do sofrimento psíquico masculino é a disseminação do discurso conhecido como Redpill. Movimento que ganhou força nas redes sociais e promove uma visão baseada na hierarquia de gênero, na superioridade masculina e na desvalorização das mulheres.
Além dos impactos negativos para a segurança e os direitos das mulheres, esse tipo de discurso reforça padrões rígidos de masculinidade. A ideia de que o homem não deve demonstrar emoções. Não reconhecer problemas de saúde mental e assumir sozinho o papel de provedor pode dificultar o reconhecimento do sofrimento psicológico e a busca por ajuda profissional.
Canais de atendimento:
Para pessoas que vivem com transtornos mentais, é importante o apoio de familiares e amigos. O fortalecimento da rede de apoio faz toda a diferença. Mas existem outras formas de ajuda no Brasil. Alguns dos principais canais de atendimento em saúde mental são:
CAPS (Centros de Atenção Psicossocial): atendimento gratuito pelo SUS para pessoas em sofrimento psíquico, transtornos mentais e uso problemático de álcool e outras drogas.
UBS (Unidades Básicas de Saúde): podem realizar acolhimento inicial e encaminhamento para psicólogos e outros serviços especializados.
CVV (Centro de Valorização da Vida): atendimento gratuito e sigiloso, 24 horas por dia, pelo telefone 188 e pelo site oficial do CVV.
A diretora de Saúde, Condições de Trabalho, Esporte e Lazer, Dayane Machado, reforça a necessidade de quebrar o tabu da saúde mental entre os homens. Em uma sociedade ainda marcada pelo machismo, muitos acabam reprimindo suas emoções e deixam de buscar ajuda quando precisam.
"Pedir ajuda não diminui o valor nem o caráter de um homem. É um ato de amor-próprio. É preciso compreender e identificar quando também precisamos de cuidados. Reprimir sentimentos não resolve o problema; chega um momento em que os sinais e sintomas começam a se manifestar no próprio corpo", afirma a diretora de Saúde.
Redação Sintraf/AP
Texto: Giovane Brito
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